Pequena reflexão logopática



Que dia mais singular! Raros são os dias em que dispomos de uma visão clara de nós e do mundo. Dias assim costumam se seguir à mergulhos no abismo e trazem consigo um misto de satori e lâmpejos transvalorativos.

Hoje os sabores e aromas da vida perderam-me a graça. A busca por uma intensidade tornou-se lugar comum e nunca agradou-me a idéia de dividir algo com alguém, nem mesmo os lugares. E até mesmo a minha busca mais particular, a perseguição da morte através da vida - o apogeu do contraste na textura da existência - parece-me, hoje, comum e sem apelo.

Por isso fui capaz de, pela primeira vez, apreciar um chá típico do Vêr-o-Peso e que consiste basicamente em ramos de folha infusos em água. Ele sintetiza bem o alvo mais recente de meu interesse: o equilíbrio. Ou ao menos algum tipo pessoal da acepção do termo. Apenas uma vaga sensação de sabor pode ser extraída tomando-se o chá, tão vaga e insípida que - melhor do que descrevê-la em termos gustativos - seria mais preciso definí-la como tendo o sabor do insosso.

Contudo, se entornado em grandes goles causa-me algum desconforto, como que houvesse saturado-me no excesso de ausência de sabor. Isto é o que busco no dia de hoje: um algo plácido, equilibrado e sem intensidade, mas ainda capaz de provocar-me alguma reação quando em seu excesso de nada.

O Trem


Capítulo IV


Borrões coloridos brilham em minhas janelas como se o próprio humor vítreo saltasse das órbitas oculares, em direção ao infinito. No rosto de meu passageiro, apenas um sorriso doentio e um olhar selvagem, embebido em lágrimas.
Sinto-me mais insólito que de costume, me distraio sentindo a linearidade da minha percepção de ser se esmiuçar, esmigalhar, entortar, e então voltar ao normal. Sinto-me instável como uma velha lâmpada fluorescente que ilumina debilmente um encardido túnel francês, com uma vítima de estupro chorando, engasgando e babando no chão empoeirado.
Engulo em seco, tanto quanto um trem poderia fazê-lo, e por um segundo deixamos de sentir os trilhos abaixo de nós. Fecho meus olhos.

Um ar gélido escorre ao meu redor e sinto-me como se estivesse nu no escuro. E o escuro é um anti-espaço, uma regressão infinita para dentro de si. Mas não estamos sozinhos. Não... posso ouvir um baque surdo vindo de um lado de fora do qual não tinha consciência até então: Ela está aqui. A última delas.
Ele a apertamos contra a parede, nossas mãos descem até sua bunda, sempre tão firme e deliciosa. E o sabor de sua pele inebria-nos, e sentimos aquele calor e pressão no peito, tão forte que machuca, como se de repente este mero orgão condensasse gravidade própria em seu interior, e nos atraísse ainda mais até ela. Não é um mero tesão carnal como com a garota que nos mostrou o decote pela primeira vez. Nosso sangue, queimando como fogo líquido dentre o intricado labirinto do ser agora deseja transbordar, unir-se com ela, ser com ela.

Mais rápido, cada vez mais rápido. Sinto que estou ultrapassando as gotas da chuva perene. Sinto medo. Ele continua a sorrir, olhando para as janelas do vagão-restaurante, ao lado de seu copo de uísque quebrado. As luzes nos corredores dos outros vagões piscam, enfraquecem, se contorcem, mas voltam a brilhar.

Agora nos sentamos ao lado da parede em que outrora a possuímos. Sinto que já se passou algum tempo desde então, e me pergunto se algum dia eu realmente a possuí. Lamento não ter aproveitado mais, me deleitado mais em cada um de nossos momentos únicos no tempo. BAM! Mas sei que ele sempre estve escorrendo no tempo, como que deitado no banco do passageiro de um carro, com as mãos para fora da janela, cortando o vento do Porvir, tocando o mundo e sendo por ele tocado, mas nunca agarrado, nunca preservado. BAM! Sinto o vazio por ela deixado naquele lugar, que fora meu antes, mas agora sempre vai ser nosso, e nunca mais. Meus dedos, machucados de extravasar o ódio fulminante, reclamam quando os coloco no meu bolso e dele retiro um anel. BAM! Coloco-o cuidadosamente num ramo de nossa árvore e o - BAM! Observo pela última vez. BAM! a tristez BAM! viro-me pBAM! ssolvendBAM! até BAM! BAM! BAM!

Ele abre os olhos, o sorriso desapareceu. Lentamente, meu único passageiro se ajoelha e dedilha em direção ao copo quebrado. Seus dedos passeiam pelas afiadas farpas de vidro e uísque diluído em água. As luzes apagam.

Ela ainda está aqui, e quando ela surge meu coração palpita, de ódio e amor. Os dois sentimentos se entrelaçam como univitelinos, nossa vista arde, sentimos uma saliva sem sabor em nossas boca, o estômago cintila de dor, e o ódio brilha no escuro de nossos olhos fechados.
Sabemos que ela se foi, se é que alguma vez esteve. Eu não a encontrei no trem, nem em seu destino original, nem agora. Todo seu ser morreu no meu mundo, mas sua sepultura infecta jaz em meu peito cansado. E então, em meio a dor e as lágrimas, uma idéia luminosa: Sabemos como destruir seu jazigo.

O sabor das lágrimas é adorável. Uma porção de patético, duas de água salgada, e um aroma inconfundível de ressaca. Os olhos de Capitú não eram senão os olhos de uma mulher que chora.
O sabor de sangue, por sua vez, não me apetece, e seu cheiro ferroso logo se faz perceber assim que uma gota escorre do dedo dele. Flertando com aquele fragmento de vidro, ele o pega em suas mãos. Já não há borrões de cores para além de mim, apenas um nada, nem claro nem escuro, uma ausência de paisagem que não é possível ser descrita. Meu passageiro leva a mão, farpa em punhos, rapidamente até o pescoço. Ao contrário do que ele supôs, não perfurou tão profundamente, obrigando-o a enterrar o fragmento, forçá-lo contra as veias. Ele tenta urrar de dor, mas o sangue vazando para dentro de seu esôfago não o permite, ele cai no chão e se contorce. E vejo um sorriso em seu rosto.

Corro na praia, a areia molhada sob meus pés e chuva fina, porém fria, cortando através de meu rosto. Sinto-me leve, e não consigo deixar de sorrir. Ela segura minhas mãos e corremos seguindo a linha do mar, e sinto o vento, sinto-me, afinal, parte do todo. Um todo, feliz e estúpido, molhado na praia.
Nos viramos para ela. "Eu te amei" ela diz. Uma lágrima quente escorre de meus olhos, contra uma face gelada pela ação da chuva. "Não é o bastante", respondo.

E lá fora a chuva pára. E não sinto mais o vento. Tento encontrar o passageiro e tampouco sou capaz de fazê-lo. Estou sozinho, no escuro. E o vazio dentro de mim parece transbordar. E o escuro também finda.

O Trem


Capítulo III

Antes de pular Ele olhou para dentro do abismo, mas este sequer pareceu notar sua presença. Verdadeiramente sozinho, meu único passageiro pulou e, agora, Ele afunda nos manguezais da consciência, no fundo do abismo donde se jogam os espíritos deprimidos.
Viajar em mim não é tarefa fácil para ninguém, é uma longa e solitária viagem rumo ao passado, e o presente parece futuro quando se olha daqui, e por mais escuro que este seja, o brilho do saudosismo fere mais profundamente. Olhar tudo aquilo que você fez, as reflexões, as conquistas, as alegrias e tristezas: ter tudo de volta, mas não poder tocá-las, isso estilhaça o frágil espírito humano.
Na escuridão dos manguezais da mente, com os pés atolados na lama pútrida de um coração enegrecido, meu passageiro olha para cima e, como em devaneio, viaja ao passado e tomo a liberdade de segui-lo.

Nós somos um garoto. Não faz mais de seis anos desde que as partículas que o compõem tomaram a atual configuração, contudo o coração desta criança é, de alguma forma, muito mais antigo. Posso sentir em seu peito as saliências de cicatrizes provenientes de um desgaste que só costumo encontrar em gente muito mais vivida.
Esta peculiaridade afeta profundamente a mim, o garoto, pois não consigo deixar de sentir uma nostalgia profunda, um misto de melancolia e saudade de momentos que nunca vivi. Carregando o peso de uma vida inteira, sobre ombros tão jovens, me ponho a fitar o rio. Gosto de acordar antes dos meus pais e correr alguns metros até o cais, e fitar este corpo d'água nas horas matutinas, assombrado por gélidas névoas, resquícios de noite.

Ele
acorda e, pela primeira vez em muito tempo, se levanta. Meu único passageiro se põem a caminhar em direção ao vagão-lanchonete. Ao chegar lá, se depara com o vazio, como em todo resto de mim.
Sem hesitar, ele pula por sobre o balcão da lanchonete, e abre o pequeno gabinete onde se encontram as bebidas. Ele se serve de whisky, e coloca uma única pedra de gelo no meio do copo.
De repente, sem aviso nem cerimônia, ele grita:
_Chega de uma vez!!!!
E arremessa o copo contra a parede de meu vagão, que se espatifa em dezenas de pedaços de vidro e gotas de whisky. Odeio o sabor de bebida diluída em água.

Ele olha em direção à janela e fita, por alguns segundos, os borrões de cores que se apresenta na paisagem. Sim, não amamos as pessoas, amamos desejar. Somos egoístas assim, e ter consciência disso deveria facilitar tudo, mas as vezes o coração parece tão pequeno, e a pressão das emoções e lembranças é insuportável. Sentimos as fibras de nosso(ou dele) músculo cardíaco se rompendo, uma aqui e outra ali, como o velho violão de um trovador aposentado. Lembranças, dor. Ódio. Nos apaixonamos por momentos e saber, agora, que tudo fora em vão, que tudo foi para o inferno, faz minha alma sangrar como carne mortal. Queremos morrer de uma vez. Queremos matar, vingar, explodir. Desaparecer com a virada de uma página e o fim de um capítulo.

E a chuva, continuava a cair...

Dança entre as sombras






Segurei na borda da piscina, para acompanhar o mundo que girava veloz e obscenamente ao redor de mim. Um fragmento das funções cerebrais que lutavam arduamente pelo controle de minhas funções corporais sabia que isso de nada adiantaria: as leis da inércia não são páreo para uma cognição afetada por um liquido volátil e incolor formado pela fermentação dos açúcares.
Algumas das funções cerebrais foram obrigadas a largar seu trabalho - até então elas aliviavam a sensação de dor das diversas escoriações em meu braço direito - para assumir o manto de um conjunto de virtudes e axiomas sociais e morais que me estimularam a conter o vômito na frente de um grupo de amigas. Fazê-lo na frente das belas garotas era, agora, equivalente à pior das heresias.
Cerca de 30 segundos depois eu estava perfeitamente bem (por fora, o interior continuava em guerra civil). O mundo continuava girando, mais lentamente dessa vez, me permitindo entrar no ritmo da existência, sendo levado por ondas de possibilidades, me policiando apenas para manter o aspecto humano. O mundo para um bêbado é senão uma dança entre sombras cognitivas as quais o sujeito em questão tem plena consciência de suas naturezas potenciais, de abstrações quantitativamente indefiníveis e, portanto, irrelevantes.

Os mortos se bastam



Seus dedos percorrem velozmente através do teclado, cruzando-o de uma ponta à outra de acordo com a necessidade. As frases surgem, implacáveis, na tela pálida do monitor. Aquele que digita quase não pisca, completamente imerso em sua pequena realidade widescreen de 40 polegadas.
Em dado momento sua inspiração para escrever acaba, e o som de digitação pára. Súbita quietude quebrada apenas pelos latidos e sons de carro da rua e ocasionais gritos de crianças brincando. Este último som remete nosso escritor a momentos felizes da infância, quando brincava de queimada na calçada defronte à sua casa, com os filhos dos vizinhos. Sabendo que sua lembrança não constitui um registro verossímel do evento real, e sim, uma construção criada por seu cérebro à poucos instantes, baseada vagamente em alguns poucos detalhes essenciais que foram memorizados, o escritor não pode deixar de se sentir levemente desencantado com essa virtualização falsificada de sua infância.
Contudo, a virtualização de convívio social que brilhava no monitor à sua frente não o incomodara, e o escritor teria voltado a escrever não tivesse olhado pela janela de seu quarto, e observado uma mulher no prédio vizinho, sentada a digitar em seu computador, tal qual nosso protagonista.
A mulher era, em verdade, não mais que uma silhueta à cerca de duas dúzias de metros de distância em relação ao escritor, que já voltara a digitar. Todavia, sua atenção furtivamente lhe escapava, em devaneios imaginando a vida daquela silhueta, seu nome, seus amigos, tristezas e alegrias. Uma bobagem sem fim que só faz sentido para pessoas que não procuram sentido, mas os criam. O súbito interesse por este filamento de realidade que compunha sua recém-descoberta vizinha, criou no escritor uma pequena aversão ao mundo digital no qual passara várias horas a escrever no gélido e etéreal vácuo virtual.
Com isto, nosso sujeito da oração (prática que ele mesmo não exerce) resolve esticar um pouco seu pescoço para checar aquela silhueta que lhe inspirava pequenos devaneios sobre bobagens relevantes. Desta vez o quarto onde a mulher se localizava se encontrava completamente escuro, e aquela que é a essência de uma silhueta provavelmente já se encontrava dormindo.
Nosso escritor se volta para o monitor, tão pouco surpreso quanto frustrado, e submerge sobs os mares gélidos e estéreis da internet, a conversar com letras virtuais e discutir com avatares eletrônicos: os mortos se bastam.



Nós nos acostumamos com a idéia de que a identidade é um estrato elementar de nós mesmos, tão parte nossa quanto nossos olhos. A verdade é que a identidade é senão uma abstração, não mais valiosa que qualquer idéia que já concebemos, ancorada em nossas mentes por meio de um símbolo ao qual se afixa. Símbolo sem o qual esta já teria sido varrida de nossas consciências há muito, pela torrente inconstante da dialética do pensamento, que cria, mas também destrói.
Se por um acaso nos defrontarmos com uma confusão em relação a este símbolo da identidade, seremos incapazes de nos reconhecer no espelho, ou podemos até mesmo nos identificar no outro, para fora de nós, pois nossa mente não se limita à caixa craniana que abriga seus processos cerebrais. Ela se estende de forma quase viral ao ambiente, marcando território com o uso de outros símbolos, por meio do qual nossa cognição, plástica como é, se projeta para além de si mesma, para ser no mundo.


Aula da Saudade - Parte 6


E todos viveram, riram, choraram, procriaram e morreram.

~ Fim ~


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