Que dia mais singular! Raros são os dias em que dispomos de uma visão clara de nós e do mundo. Dias assim costumam se seguir à mergulhos no abismo e trazem consigo um misto de satori e lâmpejos transvalorativos.
Hoje os sabores e aromas da vida perderam-me a graça. A busca por uma intensidade tornou-se lugar comum e nunca agradou-me a idéia de dividir algo com alguém, nem mesmo os lugares. E até mesmo a minha busca mais particular, a perseguição da morte através da vida - o apogeu do contraste na textura da existência - parece-me, hoje, comum e sem apelo.
Por isso fui capaz de, pela primeira vez, apreciar um chá típico do Vêr-o-Peso e que consiste basicamente em ramos de folha infusos em água. Ele sintetiza bem o alvo mais recente de meu interesse: o equilíbrio. Ou ao menos algum tipo pessoal da acepção do termo. Apenas uma vaga sensação de sabor pode ser extraída tomando-se o chá, tão vaga e insípida que - melhor do que descrevê-la em termos gustativos - seria mais preciso definí-la como tendo o sabor do insosso.
Contudo, se entornado em grandes goles causa-me algum desconforto, como que houvesse saturado-me no excesso de ausência de sabor. Isto é o que busco no dia de hoje: um algo plácido, equilibrado e sem intensidade, mas ainda capaz de provocar-me alguma reação quando em seu excesso de nada.
Marcadores: comportamento
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