Capítulo III
Antes de pular Ele olhou para dentro do abismo, mas este sequer pareceu notar sua presença. Verdadeiramente sozinho, meu único passageiro pulou e, agora, Ele afunda nos manguezais da consciência, no fundo do abismo donde se jogam os espíritos deprimidos.
Viajar em mim não é tarefa fácil para ninguém, é uma longa e solitária viagem rumo ao passado, e o presente parece futuro quando se olha daqui, e por mais escuro que este seja, o brilho do saudosismo fere mais profundamente. Olhar tudo aquilo que você fez, as reflexões, as conquistas, as alegrias e tristezas: ter tudo de volta, mas não poder tocá-las, isso estilhaça o frágil espírito humano.
Na escuridão dos manguezais da mente, com os pés atolados na lama pútrida de um coração enegrecido, meu passageiro olha para cima e, como em devaneio, viaja ao passado e tomo a liberdade de segui-lo.
Nós somos um garoto. Não faz mais de seis anos desde que as partículas que o compõem tomaram a atual configuração, contudo o coração desta criança é, de alguma forma, muito mais antigo. Posso sentir em seu peito as saliências de cicatrizes provenientes de um desgaste que só costumo encontrar em gente muito mais vivida.
Esta peculiaridade afeta profundamente a mim, o garoto, pois não consigo deixar de sentir uma nostalgia profunda, um misto de melancolia e saudade de momentos que nunca vivi. Carregando o peso de uma vida inteira, sobre ombros tão jovens, me ponho a fitar o rio. Gosto de acordar antes dos meus pais e correr alguns metros até o cais, e fitar este corpo d'água nas horas matutinas, assombrado por gélidas névoas, resquícios de noite.
Ele acorda e, pela primeira vez em muito tempo, se levanta. Meu único passageiro se põem a caminhar em direção ao vagão-lanchonete. Ao chegar lá, se depara com o vazio, como em todo resto de mim.
Sem hesitar, ele pula por sobre o balcão da lanchonete, e abre o pequeno gabinete onde se encontram as bebidas. Ele se serve de whisky, e coloca uma única pedra de gelo no meio do copo.
De repente, sem aviso nem cerimônia, ele grita:
_Chega de uma vez!!!!
E arremessa o copo contra a parede de meu vagão, que se espatifa em dezenas de pedaços de vidro e gotas de whisky. Odeio o sabor de bebida diluída em água.
Ele olha em direção à janela e fita, por alguns segundos, os borrões de cores que se apresenta na paisagem. Sim, não amamos as pessoas, amamos desejar. Somos egoístas assim, e ter consciência disso deveria facilitar tudo, mas as vezes o coração parece tão pequeno, e a pressão das emoções e lembranças é insuportável. Sentimos as fibras de nosso(ou dele) músculo cardíaco se rompendo, uma aqui e outra ali, como o velho violão de um trovador aposentado. Lembranças, dor. Ódio. Nos apaixonamos por momentos e saber, agora, que tudo fora em vão, que tudo foi para o inferno, faz minha alma sangrar como carne mortal. Queremos morrer de uma vez. Queremos matar, vingar, explodir. Desaparecer com a virada de uma página e o fim de um capítulo.
E a chuva, continuava a cair...
Antes de pular Ele olhou para dentro do abismo, mas este sequer pareceu notar sua presença. Verdadeiramente sozinho, meu único passageiro pulou e, agora, Ele afunda nos manguezais da consciência, no fundo do abismo donde se jogam os espíritos deprimidos.
Viajar em mim não é tarefa fácil para ninguém, é uma longa e solitária viagem rumo ao passado, e o presente parece futuro quando se olha daqui, e por mais escuro que este seja, o brilho do saudosismo fere mais profundamente. Olhar tudo aquilo que você fez, as reflexões, as conquistas, as alegrias e tristezas: ter tudo de volta, mas não poder tocá-las, isso estilhaça o frágil espírito humano.
Na escuridão dos manguezais da mente, com os pés atolados na lama pútrida de um coração enegrecido, meu passageiro olha para cima e, como em devaneio, viaja ao passado e tomo a liberdade de segui-lo.
Nós somos um garoto. Não faz mais de seis anos desde que as partículas que o compõem tomaram a atual configuração, contudo o coração desta criança é, de alguma forma, muito mais antigo. Posso sentir em seu peito as saliências de cicatrizes provenientes de um desgaste que só costumo encontrar em gente muito mais vivida.
Esta peculiaridade afeta profundamente a mim, o garoto, pois não consigo deixar de sentir uma nostalgia profunda, um misto de melancolia e saudade de momentos que nunca vivi. Carregando o peso de uma vida inteira, sobre ombros tão jovens, me ponho a fitar o rio. Gosto de acordar antes dos meus pais e correr alguns metros até o cais, e fitar este corpo d'água nas horas matutinas, assombrado por gélidas névoas, resquícios de noite.
Ele acorda e, pela primeira vez em muito tempo, se levanta. Meu único passageiro se põem a caminhar em direção ao vagão-lanchonete. Ao chegar lá, se depara com o vazio, como em todo resto de mim.
Sem hesitar, ele pula por sobre o balcão da lanchonete, e abre o pequeno gabinete onde se encontram as bebidas. Ele se serve de whisky, e coloca uma única pedra de gelo no meio do copo.
De repente, sem aviso nem cerimônia, ele grita:
_Chega de uma vez!!!!
E arremessa o copo contra a parede de meu vagão, que se espatifa em dezenas de pedaços de vidro e gotas de whisky. Odeio o sabor de bebida diluída em água.
Ele olha em direção à janela e fita, por alguns segundos, os borrões de cores que se apresenta na paisagem. Sim, não amamos as pessoas, amamos desejar. Somos egoístas assim, e ter consciência disso deveria facilitar tudo, mas as vezes o coração parece tão pequeno, e a pressão das emoções e lembranças é insuportável. Sentimos as fibras de nosso(ou dele) músculo cardíaco se rompendo, uma aqui e outra ali, como o velho violão de um trovador aposentado. Lembranças, dor. Ódio. Nos apaixonamos por momentos e saber, agora, que tudo fora em vão, que tudo foi para o inferno, faz minha alma sangrar como carne mortal. Queremos morrer de uma vez. Queremos matar, vingar, explodir. Desaparecer com a virada de uma página e o fim de um capítulo.
E a chuva, continuava a cair...
Marcadores: poesia urbana
1 comentários:
- At 7 de setembro de 2010 12:15 aline said...
-
eu ja estava com saudades do trem! :D
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