Aula da Saudade - Parte 5


O sofá não era exatamente a coisa mais confortável do mundo para se deitar e Rodrigo não pode evitar de se revirar de um lado para o outro, se é que existia outro lado para se virar, no decorrer da noite. Mas o desconforto era o de menos: o sono de Rodrigo fora subtraído mediante furto qualificado por um pesadelo e depois por um desejo infantil (mas que de tão antigo, já é ancião).
O pesadelo era recorrente, uma lembrança da época que seu pai o levava até o centro de detenção militar onde trabalhava, seu genitor esperava que o rebento se tornasse mais 'homem' ao ver sessões de tortura de presos políticos.
Rodrigo costumava acordar sobressaltado e suando frio destes sonhos, no entanto já estava habituado a tê-l0s e isso - por si só - não o faria perder completamente o sono. O desejo infantil e ancestral, sim.
Nutria um desejo ridicularmente pueril de que, apenas talvez, Anna o tenha convidado para dormir em sua casa com segundas intenções. Rodrigo não era exatamente - a despeito de seu bom humor - um rapaz mulherengo. Em verdade, ele ficaria surpreso se soubesse que a atitude mental que tomaria neste momento, é exatamente oposta a atitude instintiva, lapidada via milhares de gerações de humanos antes dele, que tornaria um jovem de sua idade num mulherengo, daqueles que efetivamente levava as mulheres para a cama.
A atitude que tomara consistia em reconhecer que seu desejo era apenas uma fantasia ridícula que ele criara para dar fôlego ao seu ego, tão ridícula que ele a iria suprimir imediatamente, para que não corresse o risco de agir, também ridicularmente, conforme a lânguida esperança que emanava de suas calças.
Alguns metros adiante, Anna jazia em sua cama, sonhando em estar aninhada nos braços de Rodrigo, apertados num sofá desconfortável.

Cinco anos antes...

Rodrigo segue o pai por um corredor encardido, alguns metros adiante tem um grande portão metálico, pesado e tão encardido quanto o corredor que conduz até ele, no meio havia um orifício retangular tampado com uma peça metálica de mesmo tamanho. Um soldado abre o portão e os dois ganham acesso a sala de interrogatório.
O soldado permanece do lado de fora e Rodrigo é deixado com seu pai e mais um rapaz na sala. O rapaz em questão é apenas alguns anos mais velho que ele, mas está algemado, molhado até os ossos e nu.
Rodrigo espera para ver o que vai acontecer, não que ele não fosse capaz de imaginar, mas o que mais ele poderia fazer? Seu pai faz perguntas vagas sobre 'o partido', nomes de pessoas, listas e coisas do gênero, seu filho mal consegue ouvir o interrogatório pois sua atenção, prevendo o que vai acontecer em seguida, já começara uma sofisticada manobra evasiva que consistia basicamente em escorrer para dentro de si mesmo e para longe dali.
Subitamente, seu pai se lança em direção ao prisioneiro. Aumenta o tom de voz e ele faz mais perguntas, quando percebe que não vai receber nenhuma resposta ele derruba o jovem no chão, e lhe dá um chute nos testículos. Tomado por uma dor quase insuportável, que lhe toma o controle de quase todo o corpo da cintura para baixo, o interrogado se encolhe em uma posição fetal, enquanto seu agressor lhe desfere diversos chutes na barriga, cabeça e braços.
Mesmo com a consciência sensivelmente deslocada para além dali, Rodrigo não podia deixar de notar a expressão colérica que tomara conta do rosto de seu pai, que a esta altura estava retirando de uma gaveta, na única mesa da sala, um objeto cilíndrico de madeira toscamente esculpido à imagem e semelhança de um pênis ereto.

Cinco anos depois...

Rodrigo acorda sobressaltado, suando frio, e corre em direção ao banheiro mais próximo. Ao chegar lá ele se prosta dianta do vaso sanitário e começa a vomitar.
_Duas vezes na mesma noite é foda_ pensa ele, pouco antes de ouvir barulhos vindo do quarto de Anna. Apressado, ele cospe todo o vômito que ainda restou na boca, e dá a descarga.
Anna entra no banheiro assustada e, ao ver Rodrigo pálido sentado no chão do banheiro, imediatamente se abaixa e o abraça, perguntando se ele está bem e o que aconteceu.
Seu colega de turma apenas tenta acalmá-la, enquanto pensa consigo mesmo, que não era normal.
Sua conclusão arranca algumas lágrimas solitárias, que escorrem dos olhos de Rodrigo, surpreendendo aos dois, que ficam abraçados no chão do banheiro.

1 comentários:

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